A temporada de desfiles começou (help!!), e até o dia 26 de janeiro, Milão e Paris apresentam suas apostas para o menswear do F/W25. Além de destacar meus favoritos até agora, trago uma seleção de looks do streetwear de Milão, que está um show à parte.

Nesta edição, compartilho uma reflexão especial sobre um tema que está no DNA da Crème: a arte da curadoria. Quem são os curators que não apenas descobrem tendências, mas moldam o que consumimos, desejamos e admiramos? Para mim, curadoria é mais do que uma habilidade; é um exercício — e também o que dá vida à Crème.

E, claro, minhas Weekly Obsessions também estão aqui. De Slim Aarons a um zine independente brasileiro, é uma seleção dedicada ao olhar apurado que só uma boa curadoria pode trazer.

Espero que esta edição inspire você a “refinar” o seu olhar e, quem sabe, até ressignificar o que está ao seu redor. Porque, no fim, curadoria é isso: transformar o comum em extraordinário.

Enjoy!

A grande vantagem das incontáveis horas passadas nas redes sociais — por trabalho, ócio ou puro prazer — é a descoberta de coisas novas. Então, no extenso cardápio digital de referências, dicas e informações que são oferecidos diariamente, o curator é aquele que consegue fisgar o crème de la crème disso tudo.

A definição de curadoria não é algo novo. A origem da palavra “curador” vem do latim, curator, que significa, nada mais, nada menos, aquele que tem uma administração a seu cuidado, pessoa que cuida, o encarregado de zelar.
Termo já muito utilizado no mercado das artes visuais, a primeira associação que vem à mente ao abordarmos essa profissão é o poder da escolha. Escolher quais obras e artistas vão integrar aquela exposição em determinado museu ou instituição, e, obviamente, muitas outras decisões além dessas.

Na moda, a curadoria também sempre esteve presente. Seja ao se estabelecer o que um monarca deve vestir, seja na hora de sistematizar uma nova coleção para uma marca. Já na comunicação, o curator é aquele que consegue captar, no mar de informações e conteúdos disponíveis no digital, o que há de mais fresh em diferentes áreas.

Em 1997 o jornalista e escritor britânico Malcolm Gladwell publicava o artigo “The Coolhunt” para a revista New Yorker, onde fazia uso da expressão “cool hunting” (do inglês, “caça legal”) para descrever a prática dos coolhunters de observar, coletar e mapear informações sobre padrões e novos comportamentos, prevendo tendências em diferentes áreas e mercados.

E para o jornalista Avidan Grossman, a versão de 2020 dos “coolhunters” de Malcolm Gladwell passaram a ser os curators. Porém, “em vez de ir às ruas para ver o que os adolescentes estão vestindo, eles vasculham as profundezas da Internet para agregar conteúdo aos seus seguidores, que incluem desde insiders da indústria até algumas das maiores celebridades do mundo”, afirmou ele para a GQ em um artigo sobre curadores digitais de streetwear masculino.

Os curadores são, então, aquela pequena porcentagem que sabe — e que molda — o que vai bombar bem antes de ir para o digital. Seu olhar é aguçado a ponto de perceberem as trends — de moda, música, arte, comportamento, design — se desenrolarem meses antes.

@samyoukilis no Instagram

Mas, onde os influencers entram nisso tudo? Bom, no cenário das tendências, os influenciadores digitais entram em cena muito depois. Identificar uma nova tendência envolve, em essência, reconhecer ou reagir a um padrão comportamental pré-existente. Em outras palavras, as mudanças de comportamentos sociais são, em sua maioria, o ponto de partida para a urgência de novos padrões ou produtos no mercado. Nesse intervalo entre rua e feed do Instagram, são perdidos esses significados e conceitos. E, muitas vezes, o que chega para o restante da sociedade são símbolos vazios, que não passam de tendências prontas para serem consumidas.

Por isso, Avidan Grossman afirma que chamar um curador de influenciador é apenas parcialmente correto; enquanto nos feeds dos influencers pode-se encontrar propagandas de chá diet, no perfil de um curator encontra-se a mais nova tendência de algum mercado — às vezes, até de forma inconsciente. “Para construir uma comunidade hoje, tudo que você realmente precisa, é de gosto.” declara ainda o jornalista de moda masculina.

E é justamente esse “gosto”, esse olhar cirúrgico, que torna os curators no que eles são. Seu valor reside na capacidade e na sensibilidade de reunir suas referências e compartilhá-las com sua fiel comunidade, que confia, de olhos fechados, e se atentam, de olhos bem abertos, àquilo que lhes é compartilhado.

@sucrilhos no Instagram

Para esta edição, escolhi itens que têm a curadoria como essência. Seja na fotografia, na criação de uma marca ou em suas narrativas.

Zine | "Lugar Nenhum É Longe Demais"

Fui ao evento de lançamento desse zine (publicação independente, geralmente artesanal, que pode incluir textos, imagens, arte, objetos e outros materiais criativos) no NOTTHESAMO Café. Com direito a um set animado, matcha gelado e a confirmação da trend das festas em cafés (falei sobre isso na última edição, lembra?).
Criado por Caio Reis, o zine reúne registros da sua primeira viagem à Europa — com uma curadoria afiada de cenas do cotidiano parisiense na semana de moda e cliques do sreet style.

Marca | Amazing Flaws

Rodrigo Vitale, o nome por trás da marca, é praticamente um alquimista vintage. Ele transforma aviamentos antigos e itens inusitados em peças únicas. É o tipo de trabalho que reforça a ideia de que quando o olhar é afiado, o passado vira futuro.

Livro | Volta ao Mundo: Um Guia Irreverente -Anthony Bourdain

Bourdain nos leva pelo mundo do jeito que só ele sabe. É uma curadoria de destinos sob o olhar de um gênio (sim, sou fã demais!). Antes de qualquer viagem, sempre dou uma folheada nesse “guia” para ver se ele já passou pelo local.

Documentário | Bill Cunningham New York

Bill Cunningham foi o OG do street style — com sua câmera, clicava a moda como ela realmente era, sem closes forçados. O documentário é um retrato do seu olhar — e um lembrete de que a moda mais fresh está nas ruas, não nas passarelas.

Marca | Paula Rondon

Paula faz uma curadoria impecável de tecidos antigos — o mais “novo” dos anos 80 — para criar peças cheias de personalidade. Cada material, garimpado ao redor do mundo, é transformado à mão e aproveitado até o último fio. Um vestido feito a partir de um enxoval de noiva dos anos 50/60? Yes, please!

La Dolce Vita, Slim Aarons | Galeria Mario Cohen

Slim Aarons era mestre em capturar o tipo de luxo que parece casual. Sua primeira exposição individual na América Latina, na Galeria Mario Cohen, em São Paulo, é um convite para viajar por uma estética colorida, vibrante e muito luxuosa. 

Entre cliques icônicos como “Poolside Gossip” e cenas que gritam glamour (sem filtros, porque nem precisavam). Tudo o que você vê era exatamente assim — sem stylists, sem produção. Só eles, sendo fabulosos em cenários maravilhosos (manifesting!).

A mostra vai até 15 de março. Se não der para ir, pelo menos dá para sonhar acordado com uma vida rodeada por espreguiçadeiras e drinks à beira da piscina, né?

Fotos by Slim Aarons

A semana de moda de Milão já começou, e este ano, confesso, estou bem mais animada para o menswear. Este é o Fresh Finds: um report do que está no meu radar 🔎

Na Dolce & Gabbana, até jeans e camiseta pedem um casaco de oncinha (ou leopardo?) e uma alfaiataria com lapelas tão largas que quase pedem um CPF. A coleção “Paparazzi” é inspirado no glamour exagerado dos anos dourados, com maxi-broches, tweeds, casacos de pele e um denim que só finge ser casual (mas a gente sabe que não é).

O crème de la crème? Os paparazzi performáticos espalhados pela passarela, porque, na D&G, até os coadjuvantes têm presença de palco. Aqui, o básico sempre vem carregado de drama — porque ser sutil nunca foi o forte deles (ainda bem!!).

A Prada volta a confundir (e intrigar) com sua coleção de FW25. O homem Prada deste ano mistura florais 70’s com botas pontudas de cowboy, baby tees, coletes de pele fake e padronagem xadrez que não seguem nenhum dress code óbvio. Camisas desabotoadas estrategicamente e jeans de cintura baixa completam o look com aquele ar despretensioso.

Entre smokings acetinados, trench coats, e até um doudoune envernizado, a coleção brinca com contrastes. É nostálgica e futurista ao mesmo tempo, provando que, na Prada, a graça está nos detalhes — e nos botões abertos, claro.
Previsível? Não mesmo!

Street Style - MFW

Sou fã de observar a moda de rua e o street style de Milão nesta temporada está chef’s kiss — cheia de produções que brincam com texturas e proporções. Pele e padronagem xadrez aparecem em sobreposições, enquanto broches e elementos western, como botas de cowboy, roubam a cena. Jaquetas de aviador entram no mix, acompanhadas de ombros bem estruturados, criando aquele contraste cool, sabe?

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