Dizem por aí que o ano só começa depois do Carnaval. Outros, mais espiritualizados, juram que ele só engrena depois do ano do Cavalo de Fogo. Eu prefiro acreditar que só começa após o RioFW.

Depois de quase quatro meses — que pra mim pareceram uma eternidade, e pra vocês? — esticando meus dedinhos nervosos, recalibrando minha acidez e borbulhando de ideias novas, volto. Foi um período curioso:

Muita coisa mudou por aqui. A Crème está de casa nova. Entendi, finalmente, que a Crème sou eu — e é você também. Ela é exclusiva, curada, original e pessoal. Feita para chegar direto na sua caixa de e-mail, entre um e-mail e outro chato de trabalho. 

A migração demorou mais do que eu gostaria (plataformas nunca colaboram quando estamos animadas), mas o que mudou mesmo foi interno.
Voltei a beber álcool. Contratei um personal trainer. Comecei a fazer yoga semanalmente. Fortaleci amizades antigas e fiz novas. Estou mais curiosa, explorando debates que saem do meu universo. E estou explorando um lado meu que há tempos não visitava: a vida solteira. Quem sabe não nasce uma Carrie Bradshaw morena, de franjinha, geração Z e ligeiramente menos tonta? (we hope so.)

Como escrevi na edição de um ano da Crème:

“[...] A Crème nasceu como um exercício de curadoria, mas virou um documento vivo da minha vida. Um espaço que criei para organizar tudo aquilo que minhas amigas sempre disseram ser o meu verdadeiro dom: o meu olhar.

E esse olhar percorreu longas distâncias — mas, sobretudo, ficou muito tempo observando minha própria vida em São Paulo. Dos eventos à cobertura da minha primeira fashion week internacional, cada edição foi testemunha de algo [...].”

A Crème é minha, mas também é sua.
Meu compromisso segue o mesmo: curar o melhor e compartilhar com vocês.

Junia Lopez

Escrevo esta edição levemente embriagada — e talvez envenenada — pela atmosfera carioca, esse fenômeno climático e social que transforma todo mundo em uma versão mais bonita de si. Deve ser o sol, deve ser o mar, deve ser a combinação (perigosa, rs) entre ambos. Em meio a gringos fascinados, cariocas da gema e a habitual fauna das modas, meus dedos digitam freneticamente, completamente capturados pela ideia de uma semana de moda à beira-mar.

Nada mais justo, então, do que seguir meus impulsos e soltar uma edição recheada do crème de la crème — ou, em português claro, a nata da nata do Rio Fashion Week.

O trânsito até o Píer Mauá pode ser perverso (perdi alguns desfiles por razões logísticas, confesso). Ainda assim, é difícil sustentar a impaciência sabendo que mais tarde existe uma programação envolvendo drinks, amigos e looks com pele à mostra.

Comecei a temporada com Osklen, no icônico Palácio da Cidade. O desfile marcou o retorno de Oskar Metsavaht, agora ao lado do filho, Felipe Metsavaht, que assina sua estreia como diretor artístico em parceria com o pai.

Aluf abriu o segundo dia com uma coleção guiada pelo tempo. E não de forma óbvia. Tecidos granulados evocavam areia de ampulheta, pérolas aplicadas em casaquetos surgiam como pequenas erosões preciosas, enquanto listras remetiam aos ponteiros de relógio.

Misci, sempre o desfile mais aguardado por mim, escolheu a Marquês de Sapucaí como cenário. A trilha era a bateria da Beija-Flor de Nilópolis ao vivo, a passarela tinha quase 150 metros e era inteiramente azul. Um espetáculo – e que espetáculo!

O Carnaval aparece como eixo da coleção de verão 2027, com colaborações dos carnavalescos Bruno Oliveira e Annik Salmon. Entre bordados, adereços dourados e bolsas-sanfonas brilhantes, havia também Gal Costa dos anos 1970 pairando no moodboard.

Meus destaques: biquínis e maiôs de juta, couro de pirarucu e origem vegetal, além das tramas vazadas confeccionadas a partir de redes de pesca.
Já me vejo usando o mini dress verde feito de rede de pesca!

Handred apresentou um inverno 2026 que sinaliza uma virada necessária. A imagem está mais atual, mais conectada ao agora. Modelagens amplas, volumes mais robustos, comprimentos variados, sobreposições.

Isabela Capeto voltou à semana de moda após nove anos, agora em coleção assinada também com a filha, Chica Capeto. Na passarela: lona com besouros, jaquetas jeans, batas, rendas, plissados, lamê, tule, veludo, bordados, penas, brilhos e todo tipo de excesso possível.

Aqui, more is more! O boho romântico da marca ganha novo fôlego — e novos olhos, mais jovens, o que nunca atrapalha.

Lucas Leão encerra meus destaques com precisão técnica. Carioca, neto de alfaiate e de costureira especializada em vestidos de noiva, ele volta o olhar para o Rio dos anos 1920 e transforma herança familiar em linguagem contemporânea. Ombreiras, blazers de abotoamento duplo, trench-coats, calças amplas, lapelas duplas e forros contrastantes expunham, quase didaticamente, as etapas de uma peça feita sob medida.

No fim, talvez esse seja o verdadeiro charme do RioFW: moda com vista bonita, calor humano e uma certa desorganização sedutora que nenhuma capital europeia conseguiria replicar.

Quando o universo quer te dar uma lição, o karma não pensa duas vezes antes de agir.

Nas noites quentes cariocas, vestindo apenas um pedaço de renda preta para cobrir o corpo (e olhe lá — quem se aproximava conseguia notar meus mamilos sob as rendas vazadas demais), rosto ruborizado do sol que eu havia pegado mais cedo e completamente sem maquiagem, com exceção da sombra preta bagunçada que passei às pressas nas pálpebras antes de sair de casa. O cabelo, que não deu tempo de lavar, foi resolvido naturalmente pelo sal do mar.

Depois de seis Fitzgeralds no Cedilha, rodeada pelos melhores amigos que a moda me deu, uma amiga maquiadora retocou meu olhar antes de seguirmos rumo à casa da Lenny Niemeyer para o after que encerrava a semana de moda carioca e celebrava os desfiles de Misci e Lenny.

Chegando à casa, às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, tivemos as câmeras dos celulares adesivadas. Um gesto simples, mas claro: o que acontece ali, fica ali.

Já embriagados, a música comandada por Facchinetti preenchia o espaço onde o nosso seleto mundinho das modas dançava, se observava e se envolvia. Corpos suados, maquiagem borrada, cigarros, beijos molhados, o Rio de Janeiro como pano de fundo — e, claro, ex-namorados. Inclusive aquele que te coloca na fila C do desfile. Às vezes é difícil ser esquecida quando se tem 1,75 de altura, uma franja setentista e um histórico de decisões questionáveis.

E, como toda boa noite carioca, existia também uma rixa aleatória — nesse caso, envolvendo pirarucus.

Nos embalos da madrugada carioca, onde tudo parece mais glamourizado do que realmente é, você acaba vivendo um déjà-vu nos braços de alguém que sabe o suficiente sobre você, no sofá da Lenny Niemeyer, deixando por lá algo que não pretendia perder: a dignidade.

O karma dessa lembrança foi instantâneo, porque Deus claramente não tolera certas recaídas.

No assalto — um clichê no Rio de Janeiro — os bandidos não quiseram saber da minha Friday Bag de cobra da The Attico, muito menos do meu novo lip combo favorito da M. Phillips. Levaram apenas o celular. Ai, que démodé. Vão-se as joias, ficam os dedos.

Enquanto algumas amigas trocavam olhares — e salivas — com os Metsavaht, outras descobriam a liberdade de ir embora de uma festa na garupa de um mototaxista bronzeado, de olhos verdes e sotaque chiado demais. Eu, pessoalmente, me preocupava em bloquear os cartões de crédito e recuperar a dignidade deixada nos fundos do sofá branco. Tudo ao mesmo tempo.

Chegar em casa aos prantos, com um amigo PR te esperando às seis da manhã para administrar a sua crise, não é realidade para todos. Graças a Deus, é para mim.

Eu, tirando o salto agulha dos pés e amaldiçoando certos encontros cariocas em voz alta, encerrava a noite como toda boa tragédia dos tempos modernos merece ser encerrada: descalça, com o batom borrado, sem celular e, claro, sem vergonha.

Ainda fico pensando… talvez, se eu entrar em contato com a Lenny, ela consiga cavucar os entremeios do sofá da sala para me devolver esse último item esquecido.

Uma semana de moda fica imediatamente mais interessante quando as ruas da capital fluminense servem de pano de fundo. Dar um mergulho em Ipanema seguido de almoço no Braseiro da Gávea antes de uma maratona de desfiles tem o seu valor – ô, se tem!

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