
Desde pequena, sigo à risca certos rituais. Sou dessas que toma banho de ervas, escreve pedidos em papelzinhos, acompanha as fases da lua e sempre tem um amuleto perdido na bolsa (provavelmente entre um lápis de boca e um ticket de exposição que fui há 7 semanas atrás). Meus amigos mais próximos vivem me chamando de “bruxinha” — não só pelas manias místicas, mas porque tenho mesmo uma tendência a conjurar ideias fora do comum.
Então é claro que o Dia das Bruxas é minha desculpa oficial para levar isso tudo a sério. Escrevo esta edição com uma vela acesa, um pumpkin spice latte na xícara e uma playlist temática tocando ao fundo. Não tem caldeirão! Mas tem referências de passarela e uma boa dose de proteção energética (a moda pode ser mais letal que florestas amaldiçoadas, juro!!).
Que esta edição da Crème te inspire a brincar, performar e se revelar. Porque o verdadeiro horror talvez não esteja nas fantasias assustadoras de Halloween, mas nas máscaras que a gente usa o ano inteiro sem perceber.
Queimar a ponta da língua com um isqueiro, tudo bem. Agora, esconder o próprio brilho? Aí não.
- Junia Lopez
“People always ask me why I’m a witch. I tell them it’s because I want to have magical powers. But it’s not like it sounds. All it is is using your will to get what you want.”

No creo en brujas, pero que las hay, las hay!
Há algo de inquietante no som de várias mulheres rindo juntas. Ele preenche o ambiente com uma autonomia quase perigosa, como se não precisassem de mais ninguém para se sentirem completas. Ao longo da história, esse tipo de comunhão foi sistematicamente silenciado. E não por acaso.
Durante a chamada caça às bruxas, entre os séculos XV e XVII, o que se temia não era exatamente um caldeirão ou um feitiço — mas o simples fato de elas se reunirem. Em Witches, Witch-Hunting and Women, a filósofa Silvia Federici cita um episódio registrado pelo historiador David Hume: uma proclamação emitida em Londres, em 1517, ordenava que “as mulheres não se reunissem para balbuciar e conversar”, sob o argumento de que poderiam “falar demais”. O problema, claro, era a possibilidade de articulação, afeto e troca. Mulheres que trocam saberes, riem juntas e articulam independência sempre foram vistas como um risco à ordem estabelecida.
Na mesma época, surgiu também uma das ferramentas mais cruéis do controle da fala feminina: as scold’s bridles (ou “freio de bruxa”), mordaças de ferro usadas publicamente para punir mulheres consideradas “fofoqueiras” ou “briguentas”.
Séculos depois, ainda causa desconforto ver um grupo de mulheres que riem alto, andam juntas e não estão preocupadas em parecer agradáveis. Uma rede de apoio real, viva, com um look bafo e com a língua afiada (rs) continua sendo uma forma de resistência.
Que neste Halloween, o pacto mais perigoso seja aquele em que nenhuma de nós é queimada — só a luz da vela que ilumina uma mesa cheia de taças de vinho, fofocas e amigas cúmplices.

Nem toda bruxa voa de vassoura, a maioria usa Uber.
Nesta parte da edição, compartilho feitiços práticos para enfrentar alguns terrores de quem trabalha com moda.
Prepare seu cristal. Que comecem os rituais:

Poção de memória seletiva
Beba antes de um evento cheio daquelas pessoas que te cumprimentam com um “prazer” mesmo já tendo te conhecido, no mínimo, umas 10 mil vezes. Você vai sorrir como se nunca tivesse visto a cara daquele ser humano na vida. Funciona melhor com um dry martini bem forte.
Capa de invisibilidade
Para evitar o ex, haters e aquele ser que insiste em dizer que “você é tão criativa, devia estar no TikTok”.
É só vestir e puff você só é vista por quem importa (ou seja, ninguém do mailing da festa de ontem).
Incenso para dissipar energia baixa
Ideal para quando a única coisa mais pesada que a sua bolsa é o clima do evento.
Espelho de relevância
Ideal para atravessar eventos cheios de “gente importante”.
O espelho faz com que você lembre: ninguém ali sabe o que está fazendo de verdade.
Feitiço do RSVP Fantasma
Te protege de sentir culpa por ignorar convites que dizem “imperdível” com cinco exclamações.
Le Freak (C’est Chic)
Se você já cansou das fantasias óbvias (alô, diabinha e tiara de coelhinha comprada na 25), esta curadoria é pra você: belezas, looks, silhuetas e atmosferas que capturam o espírito freak (mas chic, rs).
Do dramático ao darkly glam, passando pelo gótico romântico, aqui estão as imagens pra você salvar para as produções de Halloween.


Imagine-se numa noite fria e nebulosa de outubro. A lua está crescente. Você atravessa a cidade como quem cumpre um chamado: sobretudo preto, delineado afiado e batom escuro recém-retocado. A rua está silenciosa, mas o ar tem cheiro de magia.
Na portinha lateral de uma casa antiga, suas amigas já esperam. Uma delas usa óculos escuros às 21h. A outra segura uma taça como se segurasse um segredo. Todas vestidas de si mesmas, mas com um toque sobrenatural. A atmosfera secreta é carregada de energia, embalada por uma playlist que dita o ritmo da noite.
A anfitriã (a mais excêntrica do grupo, claro) fecha as cortinas, apaga as luzes e anuncia: “Tem um quarto secreto lá nos fundos. Vamos?”
Lá vão vocês, em fila, salto sobre taco de madeira, como se estivessem entrando numa dimensão paralela (ou só no closet de uma garota muito esotérica). No fundo do cômodo, uma mesa improvisada com velas, cartas de tarot, pedras, taças e frascos variados comprados na feirinha de antiguidades. Cada uma escolhe um drink.
Cada drink, um feitiço: um vinho tinto encorpado para esquecer o ex que ainda assombra. Um gin com alecrim para não cair na tentação de responder aquela notificação. Um drink com borda de sal grosso para proteção contra invejosos de plantão. Um shot qualquer com gosto de autoconfiança para enfrentar o próximo desfile com casting esquelético.
Entre goles e gargalhadas, alguém tira uma carta do baralho. A resposta vem em forma de ironia: “O futuro é incerto, mas o look está impecável.”
Lá fora, as fantasias genéricas se acumulam nas baladas. Aqui dentro, vocês seguem sendo bruxas.

Abrindo meu grimório pessoal para compartilhar minha witchlist: uma lista de desejos entre o místico e o materialista (afinal, eu sou uma bruxinha um tanto quanto… hã… fútil? rs).
Uma seleção cuidadosamente amaldiçoada (digo, curada):

1. Deck de tarot vintage
Não que vá prever o futuro, mas pelo menos você tem uma desculpa chic para cancelar aquele date ruim com a desculpa “as cartas disseram não”.
2. Fio de cabelo da it girl que você quer se tornar
(já que ela gatekeep tudo)
3. O sapato esquerdo da garota que você quer roubar o closet
(o direito já está no Enjoei por 4x o valor)
4. Acesso ao mailing daquele PR
que sempre diz “te aviso qualquer coisa” com a cara mais lavada da temporada.
Creamy Halloween Picks

Halloween Movie Night

Para você que já ignorou o convite para aquela festa de Halloween e agora só quer uma sessão de cinema em casa, este é o seu programa noturno:
Scary Stories to Tell in the Dark, 2019
The Craft, 1996
Rocky Horror Picture Show, 1975
The Shining, 1980
The Love Witch, 2016
Scream, 1996
HAPPY HALLOWEEN! 🕸️ SEE YOU NEXT WEEK

