Volta e meia alguém me pergunta onde encontro inspiração. Como se ela estivesse trancada num cofre secreto — tenha dó! E, embora eu acredite profundamente no poder das referências (é o que sustenta toda a lógica da Crème, afinal), ando com cada vez menos paciência para aquilo que chega fácil demais, mastigado demais, repetido demais. O que me interessa agora exige uma dose mínima de esforço, sabe?

Vivemos cercados por fórmulas, curadorias genéricas e receitas prontas que prometem facilitar até o nosso gosto pessoal. Mas gosto, repertório e visão não se delegam. E definitivamente não se constroem com tendências mastigadas. Eles se formam com atenção. A boa e velha atenção: aquela que observa, seleciona, recusa. E que, principalmente, pensa por conta própria.

Foi por isso que, ao pensar na convidada para a Crème de la Guest desta edição, quis trazer alguém que mergulha fundo em suas referências: a diretora criativa e fashion creator Giulia Calbucci.

E já que estamos falando em olhar, aproveitei para destacar alguns dos meus highlights favoritos desta temporada: Nova York, Londres e Milão já entregaram bons capítulos. Paris ainda segue nos dando motivos pra continuar de olhos bem abertos.

Vivemos uma era obcecada por “refs” — mas, curiosamente, com cada vez menos repertório. Todo mundo coleciona algo: prints, pastas, favoritos, pins. E ainda assim, parece que todo mundo anda fazendo, vestindo e dizendo as mesmas coisas. Não por acaso: hoje, o conteúdo se espalha mais rápido do que a capacidade de digestão de quem o consome. E o resultado são cópias de cópias de cópias de algo que já perdeu o gosto há três temporadas. Cafona!

Não é sobre ter boas inspirações. É sobre saber usá-las.

O problema não está na referência em si (aliás, ele começa quando você para nela, rs). O real problema é quando você vê algo que gosta e já corre para aplicar, sem nem perguntar de onde veio, o que significava, por que aquilo te pegou. A diferença entre quem tem visão e quem só reproduz é essa: profundidade. E isso se constrói olhando melhor, e não olhando mais.

Aprendi que, quando uma referência te pega de verdade, você tem que cavar. Escavar mesmo — tipo quando entramos em um brechó caótico, com pilhas de roupas desorganizadas, e precisamos ir puxando peça por peça até encontrar o crème de la crème. Porque o que aparece na superfície é sempre a camada mais fácil: a estética mais fresh, o nome mais citado, a imagem mais replicada. Mas onde isso nasceu? Quem fez antes? Quem pensou antes? Aquela garota com as referências perfeitas e ideias geniais que a gente esbarra por aí e vira automaticamente obcecada — quem ela consome em segredo? Quem moldou esse olhar? E quem moldou o olhar de quem moldou o dela?

A construção de repertório não é linear. Eu tenho gostado de enxergar como uma árvore genealógica de referências. E repertório bom é aquele que te faz se perguntar: quem é a referência da minha referência? Quais são os livros que o meu diretor favorito leu? Quem é o figurinista da série que todo mundo ama? Por que esse detalhe me chamou atenção? Quando você começa a se fazer esse tipo de pergunta, você sai do território da repetição e entra no da autoria.

Tem quem ache que ter gosto é algo inato. Eu discordo. Ter gosto é um exercício contínuo de atenção. É uma musculatura que se constrói com treino, e o treino é olhar com cuidado. Observar mais devagar. Escolher o que entra. E escolher, principalmente, o que não entra. Porque o que você consome molda o que você cria.

“My interest in making music has been to create something that does not exist that I would like to listen to. I wanted to hear music that had not yet happened, by putting together things that suggested a new thing which did not yet exist.”

— Brian Eno

Mas pra isso, você precisa se cercar de fontes que te provoquem. Precisa ficar desconfortável, às vezes. Precisa assistir filmes que não entendia antes, reler livros, visitar lugares fora da sua bolha (já tentou fazer isso?), fazer anotações sobre detalhes pequenos. Ter um arquivo de ideias que seja só seu: feito de imagens, frases, recortes, coisas que você ainda não sabe bem por que ama, mas ama mesmo assim.

Copiar é fácil. Repetir o que já deu certo é rápido. Mas criar algo que tenha o seu olhar exige mais. Exige tempo. E coragem pra não seguir a estética do momento. Porque ser interessante nunca teve nada a ver com agradar. Tem a ver com ver diferente. E pra ver diferente, você precisa parar de copiar e começar a olhar melhor.

Conheci Giulia ainda nos primeiros passos da sua trajetória como criadora de conteúdo, e, logo de cara, me identifiquei com algo que transbordava dela: a vontade genuína de ir mais fundo, estudar, construir com consistência. Mas o que sempre me impressionou foi sua capacidade de equilibrar múltiplas frentes criativas sem jamais perder o fio da coerência.

Giulia é daquelas figuras raras que operam em diferentes frequências (direção criativa, conteúdo, pesquisa) com uma clareza estética que costura tudo. Hoje, à frente da direção criativa da marca carioca de swimwear Makai e uma das vozes mais afiadas da nova geração de criadoras, ela acaba de voltar da New York Fashion Week com a mala (e o repertório) ainda mais afiados.

A estética de Giulia é uma composição precisa de opostos: drama com sobriedade, glamour com feminilidade. E nada disso é gratuito. A fashion icon que existe nela desde a era “Lolita” do Tumblr ou da fase 100% all black aprendeu a editar com mais domínio. “Acredito que hoje consigo mesclar bem esses dois lados da minha personalidade. Um truque que uso bastante é o de sempre tirar uma peça do look final. Tirar algo que faria sentido no look deixa o visual mais natural e despojado”, conta.

Esse olhar afiado também reflete na forma como constrói seu próprio acervo. E quando o Para Giulia, tudo se retroalimenta: o conteúdo que ela cria para suas redes sociais inspira produtos da Makai, enquanto a experiência de criar coleções para uma marca aprofunda sua leitura como comunicadora.

“O que pesquiso para a Makai alimenta minhas ideias para os conteúdos, e o que consumo para meus conteúdos se materializa em produto.”

- Giulia Calbucci

Quando falamos sobre rotina, essa palavra meio insossa para quem vive no caos criativo, ela é direta: sua única regra é um momento inegociável pela manhã, sem compromissos ou interrupções. É quando ela lê, escreve, escuta música ou simplesmente fica em silêncio.

Sua virada como criadora veio quando entendeu que, mais do que falar sobre tendências, gostava mesmo era de dissecar estilos. Foi aí que nasceu o quadro Assinatura de Estilo, e depois Anatomia do Estilo, que colocou de vez sua voz no radar de quem busca uma curadoria com mais densidade.

“Eu amo o drama, o glamour, o camp. Nunca consigo deixar isso de lado quando crio.”

- Giulia Calbucci

Na temporada nova-iorquina mais recente, seus olhos se voltaram para o que fugia do previsível. Giulia buscou marcas que não seguem o molde clássico da moda americana e se encantou com nomes como Luar, Kim Shui e Collina Strada — autênticas, mas sintonizadas com o espírito do tempo. O cronograma, claro, foi milimetricamente estruturado com seu time: dos looks à produção de conteúdo, tudo precisa alinhar com o tom da cidade e com o que ela quer comunicar. “Ainda fico nervosa e estressada para que tudo aconteça como o planejado… minha equipe sabe bem que na semana anterior eu estava chatíssima”, brinca.

Essa dualidade ficou ainda mais evidente em uma cena que Giulia narra como perfeita metáfora do momento atual: em uma tarde, esteve em um evento em Manhattan que gritava conservadorismo; na sequência, um desfile em um bairro ainda não gentrificado do Brooklyn, com uma estética completamente oposta. De um lado, coleções limpas e comerciais com referências europeias. Do outro, uma moda mais disruptiva, pulsando de vontade e criatividade. “Já era de se esperar, porque NY é focada no produto para venda, para o consumidor, então esses dois grupos de consumidores estavam bem claros para mim”, conta.

Fora da agenda de desfiles, Giulia encontra alimento criativo nos cantos mais inusitados. “Tenho amado assistir filmes com teor mais místico, como The Love Witch, Nosferatu e Edward Mãos de Tesoura. Também ando lendo muito sobre comportamento e consumo: Coisa de Rico e Primatas da Park Avenue foram ótimos.”

Nada é só entretenimento: tudo vira referência.

E o que ainda define uma boa criadora de conteúdo num mar de opiniões recicladas e tendências mastigadas? Para ela, a resposta é simples e difícil: autenticidade.

“As criadoras cujo conteúdo mais consumo são as que têm uma estética original e ousada ou as que expõem pensamentos críticos além do superficial. O seu diferencial sempre é ser você.”

- Giulia Calbucci

Giulia é. E talvez por isso tenha se tornado uma das vozes mais interessantes de acompanhar nesta temporada e nas próximas.

E já que estamos falando sobre “olhar melhor”, seria um crime não comentar o que andei vendo por aí. Sento pra assistir um desfile como quem abre um bom vinho. Olho casting, trilha, styling, leio as críticas, e analiso até a iluminação se deixar, rs.

Nova York, Londres e Milão já entregaram boas páginas pra essa temporada, e Paris... bom, Paris segue em andamento, me deixando grandes expectativas sobre o que ainda vem por aí.

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