Em 2023, antes mesmo da Crème existir, publiquei um texto que me parecia urgente: A Vez dos Curators. Nele, eu defendia o valor de um olhar especial. “E é justamente esse ‘gosto’, esse olhar cirúrgico, que torna os curators no que eles são. Seu valor reside na capacidade e na sensibilidade de reunir suas referências e compartilhá-las com sua fiel comunidade, que confia, de olhos fechados, e se atentam, de olhos bem abertos, àquilo que lhes é compartilhado.”

“E é justamente esse ‘gosto’, esse olhar cirúrgico, que torna os curators no que eles são. Seu valor reside na capacidade e na sensibilidade de reunir suas referências e compartilhá-las com sua fiel comunidade, que confia, de olhos fechados, e se atentam, de olhos bem abertos, àquilo que lhes é compartilhado.”

Junia Lopez, Crème “A Vez dos Curators” - 2023

Volto a esse texto com frequência, talvez porque ele tenha nascido de um lugar que nunca deixou de me inquietar. Lembro bem do almoço despretensioso com o meu namorado, no fim de 2022, em que conversávamos sobre o avanço das inteligências artificiais. O insight foi imediato: o que nunca vão conseguir substituir, copiar ou automatizar é o bom gosto.

A partir dali, comecei a escrever sobre essa ideia quase por necessidade. Porque quanto mais tudo se tornava automático, mais claro ficava o valor de quem ainda sabia escolher. De quem filtrava. De quem apontava. “A grande vantagem das incontáveis horas passadas nas redes sociais — por trabalho, ócio ou puro prazer — é a descoberta de coisas novas. Então, no extenso cardápio digital de referências, dicas e informações que são oferecidos diariamente, o curator é aquele que consegue fisgar o crème de la crème disso tudo.”

Dois anos depois, volto ao tema com mais fôlego — e com uma convidada que, por coincidência (ou não, rs), estava na lista original de nomes que selecionei a dedo na época. Stefany Park representa exatamente o tipo de olhar que este texto defende: afiado.

Esse tema de repertório, referências, autenticidade e olhar apurado faz parte da essência da Crème, e eu sempre vou defender o poder do bom gosto.

Vivemos em uma era de excessos. Excesso de estímulo, de imagem, de tendências, de opiniões. E, em tempos assim, a atenção vira um bem valioso (e raro). Mais do que isso, um reflexo da nossa identidade. Durante muito tempo, associamos inteligência à quantidade — quem sabe mais, lê mais, fala mais… Mas hoje, a inteligência artificial está aí para provar: “saber tudo”, por si só, não é mais o diferencial. O que importa agora é ter gosto.

Li certa vez que “curadoria é o novo teste de QI”. E talvez esse seja o pensamento mais certeiro para descrever o agora. Ter esse “gosto” é possuir um radar que aponta para o que vale a pena. Você é aquilo que decide observar: o que escolhe seguir, o que ignora, o que mantém por perto. Ele se fortalece com atenção, e se expande. Quanto mais você observa, mais apurado ele se torna. Quanto mais você seleciona, mais preciso fica.

“Tudo com o que entramos em contato tem o potencial de influenciar nosso gosto. Então, a arte de viver bem inclui a arte de alimentar seu fluxo de entrada.”

Rick Rubin

Bom gosto é também um exercício. Está nos seus livros favoritos, na sua lista de restaurantes, na sua playlist, nos seus hobbies, no feed do seu Instagram, nas roupas que você mais repete. E também naquilo que você recusa. Porque bom gosto também é saber o que deixar de fora.

“No final das contas, tudo se resume ao gosto. Trata-se de tentar se expor ao que de melhor a humanidade já fez e, então, tentar incorporar isso ao que você está fazendo.”

Steve Jobs, 1995

É aí que entra o valor da curadoria. Porque curadoria não é só sobre arte, moda e design. É sobre tudo o que você escolhe consumir, compartilhar, acreditar. É sobre como você organiza o seu próprio mundo.

E o que esses curadores, esses que possuem bom gosto têm em comum? Um olhar autoral, um repertório afiado e a capacidade de fazer você ver o mundo de um jeito novo. São pessoas que te fazem sentir mais esperta só por observar o que elas observam.

E isso, pra mim, é o poder do bom gosto.

“O gosto é a única moralidade. Diga-me do que você gosta e eu direi quem você é.”

Fran Lebowitz

Buyer da NK Store e presença constante nos showrooms mais disputados da temporada, Stefany Park voltou recentemente da temporada de compras em Paris e Milão. Entre seleções, drinks no Le Palette e cappuccinos na Cova, conversamos sobre repertório, estilo e o desafio de manter um olhar autoral num mercado saturado.

Ela foi a escolha óbvia para esta edição, que gira em torno de um tema que exige mais do que referências: exige bom gosto.

O bom gosto de Stefany sempre esteve ali. Antes mesmo de saber que seguiria carreira na moda, ela já enxergava o mundo com um olhar um pouco mais atento, interessado por estética, arquitetura, arte — mesmo sem nomear isso como curadoria. Com o tempo e as experiências, esse olhar ficou mais refinado.

O turning point foi sua temporada morando em Paris, entre 2018 e 2019. Foi ali, imersa em uma cultura criativa que respira moda, que ela entendeu que precisava sair do modo automático.

“Eu estava muito engessada morando no Brasil. Parece clichê, mas lá fora meu olhar realmente se expandiu. A cidade, os códigos visuais, a rotina, tudo isso me ajudou a amadurecer a forma como eu enxergo moda.”

— Stefany Park

De volta ao Brasil, começou a atuar como buyer — e desde então, filtrar e traduzir tendências virou parte de sua rotina. Para Stefany, uma boa curadoria — seja de uma mala, de uma marca ou de um feed — começa com uma palavra: autenticidade.

“O meu olhar ninguém tira de mim. Então o mais importante é se conhecer, entender o que te move, o que você gosta. É isso que passa credibilidade.”

— Stefany Park

Seu estilo pessoal também parte desse princípio. Com uma base casual-esportiva, Stefany gosta de tensionar os códigos: nunca entrega um look romântico demais, esportivo demais ou sexy demais. “Gosto da quebra. De um recorte inesperado, de uma bota gráfica, de uma transparência que tira a produção do óbvio. A camiseta branca, por exemplo, é minha base… mas o truque está sempre nos detalhes.”

E se o estilo é pessoal, a curadoria também precisa ser. “As pessoas muitas vezes copiam ao invés de se inspirar. E acho que a diferença está aí. Todo mundo vê desfile, Instagram, redes… eu também vejo. Mas o que importa é o filtro: o que realmente combina com você, o que conversa com o seu gosto, com o que você já usa. A gente precisa prestar mais atenção no que está consumindo e adaptar com autenticidade. A tendência boho, por exemplo, eu acho linda. Mas não é pra mim. Talvez um babado, num vestido, encaixe melhor. É sobre ajustar, não absorver tudo.”

Em tempos de saturação de tendências, ela defende a inspiração com filtro.

“O que falta, às vezes, é prestar mais atenção no que a gente consome. O segredo está em escolher com critério o que se encaixa no nosso repertório, e saber dizer não pro resto.”

— Stefany Park

Recentemente, Stefany passou por Paris e Milão para a temporada de compras. As coleções chamaram atenção justamente pela “simplicidade”: jeans, camisetas, peças usáveis. “Achei tudo muito comercial. Acredito que é reflexo do momento que estamos vivendo.”

Entre um showroom e outro, ela garante pequenas pausas na agenda intensa. Em Paris, sempre encontra um dos seus melhores amigos para jantar, seja no Brasserie Lipp ou no minúsculo Takuto, seu japonês favorito. A noite costuma começar com um drink no Le Palette, “do lado da casa dele e sempre com gente interessante ao redor”. Em Milão, o cappuccino com croissant de pistache da Pasticceria Cova é um hotspot obrigatório, antes de almoços na Trattoria del Ciumbia e jantares no Solferino. Antonia continua sendo sua multimarca preferida e a Fundação Prada, uma parada essencial.

Mas como filtrar tanta informação visual, tantas marcas, tantas apostas? Ela divide o cérebro em dois: de um lado, observa os movimentos que se repetem, o que aparece nos desfiles, o que as marcas estão tentando empurrar. Do outro, mantém o olhar focado no seu consumidor final.

“Moda é informação, sim. Mas no fim, o produto precisa fazer sentido para quem vai comprar. E o papel do curador é justamente esse: traduzir.”

— Stefany Park

Nos bastidores, Stefany anda em uma fase mais introspectiva: tentando consumir menos redes sociais e observar mais. “Não é sobre um livro ou um filme agora. É sobre fazer as coisas com calma. Almoçar com calma, jantar com calma, respirar. Quando a gente se afasta um pouco do barulho, consegue voltar com mais clareza.”

E o que diferencia um bom curador hoje? Ela não hesita: “É como você interpreta o mundo. Todo mundo consome, todo mundo posta, todo mundo fala. Mas o diferencial está em como você transforma tudo isso em algo seu. A diferença está no filtro, na autoria. E isso, ninguém copia.

Entre Paris e Milão, Stefany Park sabe exatamente onde ir. Abaixo, 24 horas cronometradas por quem tem o olhar mais afiado da temporada.

O que visitar? Onde comer? O que não perder? Siga quem entende do crème de la crème:

Brunch:

📍Benchy, para matcha + sanduíche japonês

Almoço:

📍Brasserie Lipp, um clássico de St Germain

Pré-jantar:

📍Le Palette com os amigos, especialmente no verão

Jantar:

📍Bistrot Paul Bert: filet au poivre com batata frita

📍Frenchie Bar à Vins: vinhos bons e comida maravilhosa

📍Ojji: japonês com decoração linda e gente descolada

Lojas & paradas obrigatórias:

📍Le Bon Marché - “sempre com as melhores pop-ups das temporadas”

📍Kiliwatch - brechó para bons achados

📍L’Officine Universelle Buly - “minha loja favorita”

Café da manhã:

📍Pasticceria Cova - “o melhor cappuccino e o croissant de pistache”

Almoço:

📍Trattoria del Ciumbia

📍A Santa Lucia

Aperitivo:

📍Sant Ambroeus

Jantar:

📍Solferino - “um dos meus favoritos”

Compras & Cultura:

📍Antonia - “minha multimarcas favorita”

📍Fundação Prada - parada obrigatória

Os Creamy Picks desta edição flertam com o casual, o esportivo e uma dose de ousadia. Um recorte direto do que tem ocupado minha cabeça (e minha wishlist, rs).

SOON…

Spoiler do que está cooking na Crème… 👩🏻‍🍳 e não, não estamos falando de bolo. Palpites?

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