
A ideia desta edição surgiu quando estava relendo The One Hundred, escrito por Nina Garcia em 2008. O livro é, basicamente, um passeio pelas cem peças que ela considerava essenciais no closet de uma mulher - os clássicos, os que não saem de moda ou os que sempre acabam voltando. Nas primeiras páginas, ela já avisa: cada lista deve ser adaptada ao seu próprio estilo. Mas o que mais me fascinou foi a sensação de entrar no closet imaginário da Nina Garcia e espiar tudo de perto.
“Opening up your closet can be like telling your best friend your untold secrets: her reaction may surprise you.”
E o que me surpreendeu ao abrir esse armário, mesmo que fictício, foi como a maioria das peças continuam 100% atuais (mas sem esse papo de “armário cápsula”, minimalismo ou coisa do tipo). Como nada realmente importante ficou de fora. Como um armário pode ser interessante, completo e eterno com 100 peças bem escolhidas. E, principalmente, como senti vontade de fazer a minha própria lista (e copiar vários itens da dela, claro!).
Foi aí que pensei: isso sim é um personal archive. E é sobre isso que esta edição trata.
Convidei a stylist Maria Bolelli, uma das pessoas com o armário mais legal que já vi, para ser a Crème de la Guest desta semana. Também compartilho as minhas Weekly Obsessions do momento (que seguem o mesmo mood de colecionáveis) e a minha Creamy Wishlist, com itens que merecem um lugar no meu próprio archive.
A grande pergunta é: quem guarda, tem?

Se tem algo que fui percebendo nos últimos anos, é que as mulheres mais estilosas (e com mais personalidade) que conheço não tratam o próprio armário como um depósito de tendências passageiras. Elas constroem algo maior. Algo pensado. Um personal archive.
E não, isso não significa acumular roupas que nunca verão a luz do dia ou manter viva a esperança de um comeback improvável. Criar um arquivo pessoal de moda tem mais a ver com curadoria do que com acúmulo. É enxergar as roupas com um olhar estratégico e, ao mesmo tempo, emocional. Saber o que merece ser guardado, o que vale o investimento e o que pode (e deve) ficar no passado, sem culpa.
É exatamente isso que quero levar mais a sério. Um armário com base sólida: básicos de altíssima qualidade (t-shirts impecáveis, alfaiataria que sobrevive ao tempo, jeans que envelhecem como vinho) e peças statement que elevam qualquer combinação. Porque não adianta só ter o básico perfeito, um closet de verdade precisa de um pouco de mistério, de temperinho, sabe como? De uma jaqueta vintage dos anos 70. De um vestido que parece ter pertencido a uma socialite excêntrica dos anos 20.
Gill Linton, CEO da Byronesque, plataforma especializada em Balenciaga, Lang e Margiela da era grail, define bem a diferença entre um acumulador e um arquivista: “Há cinco ou dez anos, eles seriam chamados de acumuladores. Hoje, são arquivistas. Qual a diferença? O arquivista é meticuloso, cuidadoso e estratégico com o que compra. E ou você é bom nisso, ou não é. Consideramos um investimento emocional e financeiro — e quando a parte emocional está certa, o valor financeiro só sobe. É como arte.”
Hoje, colecionadores disputam peças de Raf Simons, Helmut Lang, Phoebe Philo como se fossem obras de arte. No Japão, Bélgica, França e até em plataformas como o Grailed ou o Vestiaire, existe uma nova geração que trata moda como um mercado de arte. E, de certa forma, é mesmo. Um personal archive é uma coleção privada de micro desejos e raridades.
Mas veja bem: não estou dizendo que você precisa de uma archived piece da Prada para ter um bom armário. Aqui, adaptamos a ideia à realidade. Às vezes, a peça mais especial do seu acervo pode ser uma jaqueta de couro herdada do seu avô, um par de brincos de pressão da sua bisavó, uma saia de paetê garimpada no armário da melhor amiga, ou aquele merch surrado do show da sua banda favorita.
É por isso que, nos meus melhores dias, escolho enxergar o armário como uma coleção viva, ativa. Um espaço que guarda o que tem valor, o que me representa, o que atravessa o tempo. Porque um bom acervo pessoal significa que, no futuro, você não vai precisar sair caçando desesperadamente um bom blazer ou uma bolsa especial. Eles já estarão lá, entende?
Quem pesquisa, quem tem um olhar cuidadoso, quem sabe selecionar… quem guarda, definitivamente, tem.

Não foi difícil encontrar a Crème de la Guest perfeita para esta edição. Assim que pensei no tema, Maria Bolelli veio à cabeça — poucas pessoas têm um estilo tão afiado e um acervo tão instigante. Seu arquivo pessoal vai de peças de passarela a achados preciosos garimpados em viagens pelo mundo, tudo reunido com um olhar que mistura intuição e uma dose de ousadia.
Nascida em Vitória, Espírito Santo, a stylist se mudou para Londres aos 15 anos e passou quase uma década absorvendo tudo o que a cidade oferece em termos de cultura e estética. Desde o fim do ano passado, está de volta ao Brasil, agora baseada em São Paulo, onde também comanda sua marca homônima e lança drops temáticos que são a cara do seu universo nada tímido.
Seu personal archive, que em breve será aberto ao público (oba!), não é apenas extenso; é vivo, e talvez um dos mais autorais que já vi de perto. Nesta edição, Maria compartilha seus processos, referências e apostas com a mesma generosidade de quem sabe que estilo, também, é sobre saber guardar o que realmente faz sentido.

Tem gente que tem um closet. Maria Bolelli tem um acervo.
Seu acervo pessoal é mais do que um conjunto de roupas, é uma extensão do seu olhar cuidadoso e aguçado. De forma intuitiva, Maria deu start na construção desse personal archive sem muitas regras, apenas com peças que despertavam algo. “Muitas vezes, as peças nem pareciam pertencer ao mesmo guarda-roupa, e era justamente isso que fazia sentido pra mim”, relembra. Foi nesse improviso que tudo começou a ganhar forma.
A virada de chave veio com a mudança para Londres, aos 15 anos. “Lá, cada bairro tem uma estética própria. Observar isso, prestar atenção no que as pessoas usavam, entender o que era considerado ‘cool’... tudo isso moldou meu olhar.” E foi nesse cenário que brilhou um olhar mais apurado, e a curadoria se tornou mais consciente na rotina de Maria.
“Toda cidade carrega um código estético próprio — e, quando você está atenta, ele salta aos olhos. Mas o que me chama atenção de verdade, em qualquer lugar, é quando alguém é simplesmente fiel a si mesmo. A singularidade é magnética, mais do que as pessoas admitem.”
Com esse refinamento no olhar, veio também uma certeza: liberdade é o ponto de partida. “Estilo, pra mim, é se libertar da prisão do que deve ou não ser usado. Entendi o que funciona no meu corpo, o que comunica o que quero dizer e o que simplesmente me atrai.” Seu repertório é um mapa pessoal de referências — Galliano, McQueen, Jonathan Anderson, Phoebe Philo, Alaïa. “Galliano me inspira pela capacidade de criar mundos inteiros com storytelling apurado.
McQueen, pela alfaiataria poética e sombria. Jonathan Anderson transforma o banal em arte, Phoebe entregou a melhor versão da Celine e Alaïa é mestre absoluto da estrutura.” Ela ainda cita o lúdico sofisticado de Schiaparelli, a teatralidade precisa de Thom Browne e a alquimia visual de Alessandro Michele — “meu one and only”, brinca. No Brasil, destaca a Misci, por traduzir o Brasil de forma refinada e sem caricatura. E acompanha com entusiasmo os jovens talentos da Central Saint Martins e da Parsons: “É isso que me move: vozes únicas, visões afiadas, uma estética que vem de dentro pra fora.”

Esse olhar afiado também reflete na forma como constrói seu próprio acervo. E quando o assunto é personal archive, Maria é direta: “O primeiro passo é resistir ao fast fashion. O nome já entrega: é feito para durar pouco.” Sua curadoria começa nos detalhes: acabamentos, modelagens esquecidas, costuras bem feitas. E ela reforça: não se trata de montar um guarda-roupa pronto da noite para o dia, mas de formar uma história com o tempo.
No início desse processo, vieram as protagonistas, as peças que sustentam um look sozinhas. Só depois, com o tempo e a experiência, chegaram as bases. “Essas peças não são básicas. São o alicerce do acervo.” Com esse raciocínio, também veio uma nova percepção de presença para as statement pieces: “A mesma bota de bico quadrado que antes precisava ser o centro do look agora aparece discretamente, surgindo sob a barra da calça. E o efeito é mais interessante: mais silencioso, mais sofisticado.”
“O acervo hoje é a síntese disso tudo — de peças statement a bases bem construídas, de designers independentes a achados esquecidos — e virou uma extensão da minha forma de ver o mundo.”
O mesmo princípio rege seu trabalho como stylist, que parte de uma escuta atenta, mas também de um faro treinado para decodificar identidades e universos. Para Maria, montar um look (para si mesma ou para um cliente) começa com o que ela chama de leitura estratégica do contexto. “Quem é a pessoa? Qual é o evento? Onde será? Em que clima, estação ou cidade?” Essas perguntas não apenas definem a funcionalidade da roupa, mas também a atmosfera que ela deve evocar. Quando possível, ela pede até o convite do evento. “As escolhas gráficas — cores, fontes, imagens — revelam mais do que parecem.”
A partir daí, entra em cena sua parte favorita: traduzir todas essas informações respeitando - e refinando - o estilo de quem veste. “É nesse momento que entro em pesquisa — marcas, coleções, referências que comuniquem quem aquela pessoa é.” Fugir do óbvio, para ela, não é um truque de styling, mas uma forma de construir um storytelling.

Uma produção realmente interessante começa nos detalhes: a escolha de cores, texturas, proporções. “Preto e branco sempre vai funcionar, mas é uma solução segura”, diz. “O interessante é entender por que certas cores funcionam entre si — como roxo com laranja, amarelo com rosa, azul Tiffany com amarelo manteiga.” Amarelo, inclusive, é uma de suas apostas favoritas para esse tipo de jogo cromático. “A alquimia das cores não é só estética: envolve temperatura, saturação e harmonia. É algo que você desenvolve com o tempo e com treino de olhar.”
O mesmo vale para as texturas. Ela brinca com contrastes improváveis, como seda com látex ou tweed com jersey, criando produções inusitadas sem pesar a mão. “Gosto de incluir elementos inesperados, desde que estejam alinhados ao contexto. A ideia é sempre surpreender.”
Para ela, a ordem dos fatores não altera o impacto final: “Às vezes começo por um vestido, às vezes por um sapato ou acessório específico. O importante é ter um ponto de partida que faça sentido e construir uma narrativa visual forte a partir dele.” Segundo Maria Bolelli, o objetivo, no fim, é sempre o mesmo: causar impacto, parecer pensado nos mínimos detalhes. E que quem olhe saiba, logo de cara: isso foi feito sob medida para este momento.
Pensar assim é o que diferencia um armário de um arquivo. Um personal archive não nasce de uma tendência ou de uma compra impulsiva. Ele se constrói na vivência, no uso, no repertório. E, como ela mesma diz, “o acervo deixa de ser feito de momentos isolados e começa a construir camadas.”
Camadas essas que contam uma história — a sua.


Estava na BETC Havas, meu lugar favorito para comprar revistas em São Paulo, quando duas garotas da minha idade se aproximaram, revirando sem muito entusiasmo as prateleiras recheadas de publicações internacionais. Até que uma delas, em tom pretensamente blasé, soltou: “Alguém ainda compra revistas em pleno 2025?”.
A pergunta me espantou. Soou tão... demodê.
Pois bem, dedico esta Weekly Obsessions à garota que eu não sei quem é: na verdade, querida, as publicações impressas nunca estiveram tão em alta — e tão colecionáveis!

Chanel Art’s & Culture
Começando com a nova publicação da Chanel, batizada de Arts & Culture, uma ode editorial à herança criativa da maison, aos artistas que moldam o agora e à interseção entre moda e patrimônio cultural. Sob direção de Yana Peel, líder do Chanel Culture Fund, o Vol. 1 reúne 250 páginas de curadoria afiada. Já nasce objeto de desejo e estará disponível em livrarias de cidades como Paris, NY, Tóquio e… São Paulo!!!

Acne Paper
Já a Acne Paper escolheu o tema “Archive” para a sua 20ª edição comemorativa. Com editoriais que colidem tempo e estética, e pop-ups em Paris, Milão e Xangai, a revista reafirma seu lugar como uma peça de coleção.

Mad Magazine
E direto do Brasil, a MadMag, publicação da marca de roupas Mad Enlatados, chega como uma revista da juventude criativa atual. Com 200 páginas, 30 artistas convidados e um olhar documental, ela não só cataloga o agora, mas arquiva o presente com um olhar cheio de humor e originalidade.

A edição termina como começou: com The One Hundred, de Nina Garcia, aberto sobre a mesa. Selecionei seis dos cem itens indispensáveis listados no livro, com direito a citações diretas da autora e, claro, a minha própria curadoria!

“Facilmente uma das melhores formas de mostrar estilo. É uma questão de tamanho e de presença. E nem precisa ser verdadeiro. Em alguns casos, um anel grande vintage falso é preferível. O grande toque de classe de um anel de coquetel não é uma questão de preço, e sim de coragem, audácia e ousadia.”
“Geralmente, o little black dress perfeito encontra uma mulher quando ela menos espera. Se ela se coloca na missão de encontrar o pretinho básico perfeito, é provável que leve muito tempo. Mas, se ela estiver a caminho de um brunch de domingo, é provável que pule milagrosamente na frente dela. E, independentemente do preço, ela deve levá-lo. Pode ser H&M ou pode ser Alaïa.”
Mas eu te ajudo nessa missão: o meu vestidinho preto perfeito, eu encontrei na Angelica Bucci.
“Ainda é bem útil para fazer os homens ficarem de joelhos.”
“Escolha um jeans que vista perfeitamente em você, e fique com ele. O caimento é tudo, e a natureza do jeans é a democracia. Seja autêntica, e o jeans também será.”
O meu modelo favorito é o clássico 501 90’s da Levi’s.
“A jaqueta de motociclista sempre será a grande preferida dos realmente elegantes. Todas as modelos, atrizes e musicistas têm uma versão fiel, antiga, para vestir rapidamente quando sentirem a necessidade desse evasivo momento elegante.”
As garimpadas em brechós são as melhores!
“Essa é a bolsa que você pode gastar o salário de um mês e não se sentir culpada — ou, pelo menos, não deveria. Ela durará uma vida inteira, nunca perderá o estilo e só melhorará com a idade. E, quando sua neta a encontrar daqui a cinquenta anos, tentará furtá-la.”
Usei este item como desculpa para exibir a bolsa que anda nos meus sonhos, hihi.

